Educação Literária - Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco
Introdução
Amor de
Perdição, de Camilo Castelo Branco, constitui umas das obras portuguesas típicas
do Romantismo mais conhecidas no país. Este movimento literário tem como características
principais a forte intensidade do amor, que se sobrepõe à razão, e uma
conclusão trágica.
Alegadamente,
o autor escreveu a obra em apenas quinze dias, enquanto cumpria pena de prisão na
Cadeia da Relação do Porto, publicando a obra em 1862.
Na obra é
narrada a triste história de Simão Botelho, cujo rasto Camilo encontrou nos
livros do cartório das cadeiras onde o protagonista da história se encontrara
detido.
Ao ler o seu
percurso de vida, Camilo Castelo Branco sintetizou-a na frase “Amou, perdeu-se,
e morreu amando”, que constitui a frase laminar que estrutura a história.
Estrutura
A obra é composta por uma introdução,
por um desenvolvimento com vinte capítulos no total e por uma conclusão.
Na introdução,
é apresentada de forma breve a história de Simão através da referência à sua
entrada na Cadeia da Relação do Porto e da sua ida para o degredo, sendo mencionada
a frase laminar.
No
desenvolvimento, é narrada a relação entre Simão e Teresa, desde o momento em
que se conhecem, em 1801. O capítulo X termina com o assassínio de Baltasar
Coutinho e com a condenação de Simão Botelho e o capítulo XX termina com a ida
de Simão para o degredo e com a morte de Teresa no convento.
Na conclusão,
é relatada a doença e morte de Simão durante a viagem, que resulta no suicídio
de Mariana.
Sugestão
biográfica
Para conferir
à narrativa uma garantia de autenticidade, Camilo Castelo Branco faz referência
aos factos reais por ele encontrados, conhecidos através dos registos que
encontrou na Cadeia da Relação do Porto.
Estes não só
permitem ao autor apresentar uma matéria narrativa com origem em factos
verdadeiros, como também ajudam Camilo a se conectar com o protagonista, pela coincidência
de situações (ambos ficaram detidos na mesma cadeia por situações semelhantes,
relacionadas com questões amorosas), o que lhe também dá um motivo para
escrever a obra.
Já no final
da obra, o autor menciona a sua verdadeira relação de parentesco com Simão Botelho,
sendo o último tio do autor.
A obra como crónica da mudança social
Através da
sua obra, Camilo Castelo Branco manifesta o seu sentimento de revolta e de desencanto
pelo país, não só pela história relatada como também pelos comentários subjetivos
que o narrador faz.
Deste modo,
a história de Simão Botelho traduz uma crítica à sociedade, dado que a mesma ainda
se assenta na falsa virtude, na honra e no dever social, ao invés de valores relacionados
com o domínio do amor e da liberdade em ascensão (mundo antigo vs. mundo novo, respetivamente).
Assim, a luta
dos protagonistas em defesa dos sentimentos individuais e do direito de amar alude
ao conflito entre as leis do coração e as leis dos homens.
Relações entre personagens
Simão e
Teresa, pertencentes à classe nobre, constituem os protagonistas que lutam pelo
seu amor, tal como foi referido anteriormente.
Possuem como adjuvantes João da Cruz
e Mariana, filha do primeiro, ambos pertencentes ao povo e defensores dos
mesmos ideais que o par amoroso. É oportuno mencionar também que Mariana amava
Simão, embora ajudasse e servisse o protagonista desde o momento em que o
conhece. Tal acontece devido à sua classe social mais baixa, o que lhe faz
acreditar que deve servir Simão.
Quanto aos oponentes, têm na sua frente
Domingos Botelho, pai de Simão, Tadeu de Albuquerque, pai de Teresa, e Baltasar
Coutinho, primo da última. Todos eles tem, sensivelmente, as mesmas características,
sendo membros da nobreza que colocam a honra acima de tudo o resto, embora
Baltasar Coutinho também amasse Teresa.
O amor-paixão
O amor-paixão vivido por Simão e Teresa
apresenta as seguintes características:
- Intensidade
do sentimento amoroso (desejo de alcançar incondicionalmente a felicidade);
- Entrega
espiritual;
- Impossibilidade
da concretização física;
- Oposição à
razão (o amor acima do resto);
- Catalisador
do conflito com a sociedade;
- Conduz à
morte de ambos (desenlace trágico).
O herói
romântico
O herói romântico, personificado em
Simão, Teresa e Mariana, fica marcado pelas seguintes características:
- Excecionalidade;
- Idealismo;
- Individualismo;
- Egocentrismo;
-
Indiferente ao que se passa no mundo exterior;
- Força de
sentimentos (amor, honra e dignidade);
- Esperança;
- Confronto
com a sociedade e com os valores sociais que a marcam;
- Frustração
/ Desilusão;
- Amor
espiritual (a morte como mecanismo de salvação e libertação).
- Vítima do destino.
Importância
dos diálogos
Os diálogos acabam por desempenhar
um papel muito relevante na história, visto que possuem as seguintes funções:
- Informar
acerca determinadas circunstâncias decorrentes;
- Fazer a
expansão sentimental;
- Permitir a
confrontação;
- Comunicar
decisões tomadas;
-
Caracterizar as personagens.
Extra
Que
sinais de tragédia surgem logo no início da obra?
Logo no início da obra, na
introdução, o narrador dá conta de que se encontra na mesma cadeia do
protagonista, e menciona a frase laminar que estrutura a história – “Amou,
perdeu-se, e morreu amando”. Além disso, nos primeiros capítulos, o narrador
descreve Simão como tendo uma personalidade espontânea e problemática, e faz
questão de referir o conflito entre a família de Simão e a família de Teresa.
Que papel tem o destino na vida das personagens?
Na vida das
personagens, a simbologia do destino é acentuada ao longo de toda a obra ao
servir de guia para Simão acreditar profundamente no seu amor por Teresa. Tal
motiva a sua missão na obra, e impede-o de tomar qualquer outro rumo que não
inclua estar com Teresa, o que também se reflete no comportamento de Teresa,
que partilha esta mesma característica com Simão. Deste modo, o destino fá-los
acreditarem sempre no amor, apesar dos obstáculos que enfrentam, até ao momento
da sua morte.
O amor surge como libertação ou como perdição?
Na obra, o
amor surge, evidentemente, como perdição, não só para o par amoroso, como
também para todos os envolvidos na história, como Mariana, Baltasar Coutinho e
João da Cruz, tendo os três o mesmo fim fatal que Simão e Teresa, nomeadamente
a morte, em diferentes etapas da história.
Justifica o título Amor de Perdição.
O título Amor
de Perdição deve-se, naturalmente, ao facto de o amor ser o fator que
arrasta as personagens principais até à sua morte, isto é, o mesmo constitui o
motivo para o final trágico da obra, além de prejudicar todos os envolvidos na
história, como foi referido anteriormente.
O destino das personagens parece inevitável?
O destino
das personagens, nomeadamente a morte, parece ser inevitável, dados os vários
sinais que surgem desde o início da obra, os quais sugerem tal destino, e os
diferentes obstáculos ao amor que se evidenciam ao longo da história, como a
autoridade de Tadeu de Albuquerque, pai de Teresa, e a ida de Simão para a
Cadeia da Relação do Porto e consequente ida para o degredo na Índia, morrendo
na viagem. Além disso, a própria natureza da obra, enquadrando-se na temática
do Romantismo, antecipa um final trágico que é característico deste género
literário.
Rererências
SILVA, Pedro; CARDOSO, Elsa; NUNES, Susana Ribeiro. Letras em
dia 11. Maia: Porto Editora, 2024
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