Texto Expositivo - Dissimulação entre o ser e o parecer (Sermão de Santo António e Farsa de Inês Pereira)
Tanto na Farsa de Inês Pereira, de Gil Vicente, como no Sermão de Santo António, por Padre António Vieira, ambos os autores fazem questão de referir e criticar o culto das aparências, nomeadamente a hipocrisia do confronto entre o ser e o parecer.
Na primeira
obra, Gil Vicente desenha a figura do Escudeiro justamente para personificar
este mesmo defeito. Como tal, logo após o casamento entre Inês e o Escudeiro, o
último altera completamente a sua atitude perante a esposa, e prende-a em casa,
revelando, assim, o seu verdadeiro ser opressor, que contrasta com a sua
aparência anterior, a qual ia de encontro com o ideal de marido imaginado por
Inês (sábio, bom falante e que soubesse tocar viola). Além disso, Gil Vicente
aproveita, também, o pobre estado financeiro do Escudeiro, revelado pelo Moço,
para denunciar a decadência da Nobreza.
Já na
segunda obra, Padre António Vieira, quando parte para as repreensões aos
peixes, em particular, descreve, entre os quais, o Polvo, que se caracteriza
por ter a capacidade de se camuflar. Esta habilidade permite-lhe mudar de cor,
sendo este o mecanismo figurativo para a representação da dissimulação entre o
ser e o parecer no Polvo. Além disso, o pregador tece fortes críticas ao Polvo
por ser um hipócrita e “o maior traidor do mar”, características que se
enquadram no perfil do culto de aparências.
Concluindo,
tanto Gil Vicente como Padre António Vieira visam criticar a dissimulação entre
o ser e o parecer na sociedade das suas épocas, através da personificação deste
grande defeito no Escudeiro e no Polvo, respetivamente.
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