Educação Literária - Crónica de D. João I, de Fernão Lopes

 Introdução

            A Crónica de D. João I, escrita por Fernão Lopes no século XV, consiste numa obra literária que relata um dos períodos mais marcantes da História de Portugal, bem como uma das batalhas mais icónicas da nação. Refiro-me, portanto, à crise dinástica entre 1383 e 1385 e à famosa Batalha de Aljubarrota.

            A vida de Fernão Lopes, à semelhança de muitos outros grandes escritores portugueses da nossa História, como Gil Vicente e Luís de Camões, é pouca conhecida. Ainda assim, sabe-se que o autor teria sido responsável por escrever as crónicas da história geral do reino, até D. João I, sendo nomeado cronista-mor.

            A Crónica de D. João I é uma narrativa longa, pensada e redigida com o objetivo de preencher os requisitos de uma crónica, nomeadamente registar os acontecimentos e as figuras que viveram desde 1383 até ao reinado de D. João I.

            Dada a natureza da obra, bem como os acontecimentos nela relatados, é natural que Fernão Lopes tenha dado uma clara importância ao crescente sentimento nacionalista, o que se torna evidente pela luta e espírito de sacrifício da população lisboeta ao se defender de Castela, a fim de garantir a manutenção da independência de Portugal.

            É ainda oportuno mencionar que o autor foi mais além daquilo que se esperava, verificando e interpretando diversas fontes históricas, de modo a fazer da sua história uma “clara certidão da verdade”.

 

Contexto histórico

          Com a morte de D. Fernando em 1383, o Reino de Portugal deparou-se perante uma crise dinástica, uma vez que o Rei não tinha tido nenhum filho legítimo. D. Leonor Teles assumiu, então, a regência do reino.

            Contudo, era sabido pelo povo que a regedora era influenciada pelo Conde Andeiro, o qual partilhava os mesmos interesses que o reino vizinho.

            No meio desta crise, D. João I de Castela manifestou interesse em subir ao trono português, ideia que, ao se concretizar, significaria o fim da independência de Portugal. Todavia, o Tratado de Salvaterra de Magos não permitiu que tal acontecesse.

            Dada a crise que se instalou no reino, bem como os interesses dos castelhanos em reivindicar o território português, deu-se uma revolta popular, na qual o Conde Andeiro foi assassinado e o Mestre de Avis foi proclamado como Regedor e Defensor do Reino.

            Nos meses que se seguiram, Castela invadiu Portugal, e montou um cerco à cidade de Lisboa. Durante este período, o Mestre de Avis foi reconhecido, nas cortes de Coimbra, como monarca de Portugal, dando-se início ao seu reinado enquanto D. João I.

            Por fim, deu-se a famosa Batalha de Aljubarrota, a 14 de agosto de 1385, onde os portugueses saíram vitoriosos, graças às táticas usadas e ao terreno que lhes favorecia. Deste modo, os castelhanos foram expulsos do reino, marcando o fim do período de crise em Portugal.

 

Afirmação da consciência coletiva

            A afirmação da consciência coletiva assume-se como um dos pontos centrais da Crónica de D. João I, estando altamente presente nas ações do povo nos três capítulos estudados em sala de aula.

            Das características que definem a afirmação da consciência coletiva, destacam-se as seguintes:

 

- Manifestação de sentimentos de pertença a um grupo, isto é, a nação, fundamentada na vontade universal de manter a autonomia política;

- Ação popular coesa na defesa da cidade e da independência nacional contra os ataques de Castela, apoiando o Mestre de Avis;

- Valorização da “terra”, da identidade nacional e da vontade popular, face à situação de crise política instalada no reino;

- Demonstração de coragem, patriotismo e espírito de sacrifício na guerra com Castela e perante as adversidades por ela trazidas.

 

Atores

As personagens na Crónica de D. João I, também chamadas de autores, dividem-se em dois grupos distintos.

 

Individuais

            As personagens individuais na obra de Fernão Lopes apresentam traço de carácter distintos, os quais são evidentes pelas suas ações e tomada de decisão, quer seja na sua atuação (personagens presentes, como o Mestre de Avis e o Pajem do Mestre) ou nas referências que lhes são feitas (personagens ausentes, como o rei de Castela).

            Vale ainda salientar que se tratam de personagens históricas e, portanto, reais que tiveram grande influência no decorrer dos acontecimentos entre 1383 e 1385.

            Assim sendo, as personagens históricas em destaque são:

 

- Mestre de Avis (mais tarde D. João I de Portugal);

- Pajem do Mestre;

- Álvaro Pais;

- D. João I, rei de Castela;

- Leonor Teles;

- Conde Andeiro.

 

Pode-se acrescentar ainda que o primeiro assume o carácter de protagonista, principalmente em determinados trechos, sendo a figura principal do reino na luta pela independência, embora revele momentos de hesitação e de um certo apagamento, que se devem à sua condição humana e que não são escondidos pelo cronista

Além disso, os últimos dois atores também podem ser entendidos como antagonistas, por se oporem às atitudes do Mestre de Avis.

 

Coletivos

            A personagem coletiva em destaque na Crónica de D. João I é, sem dúvida, o povo, em particular a população da cidade de Lisboa, que entra na história como um grupo anónimo de pessoas que partilham as mesmas vontades, sentimentos, emoções e ações (afirmação da consciência coletiva).

            O povo é também quem assume o protagonismo do relato, cabendo-lhe as funções de defesa da capital, do reino e da sua independência e de apoio ao Mestre de Avis.

 

Capítulos

            No contexto de sala de aula do 10.º ano, são lecionados três capítulos da longa Crónica de D. João I, que representam três das fases mais importantes e contextualmente ricas da obra. Estes são os capítulos 11, 115 e 148.

 

Capítulo 11

            O Capítulo 11 fica marcado pela revolta, fúria e preocupação do povo de Lisboa, perante a notícia de que o Mestre poderá estar morto, sentimentos que são posteriormente substituídos essencialmente por alívio, com a conformação de que o mesmo está vivo.

            Assim, neste capítulo evidencia-se a união e movimentação coletiva dos elementos do povo, que se mostra leal ao Mestre de Avis, estando disponível para o defender.

 

Capítulo 115

            Neste capítulo, Fernão Lopes decide dar destaque ao esforço, valentia e determinação da população da capital, perante o cerco montado por Castela.

            Assim, o povo mostra-se obediente ao Mestre, respeitando os seus papéis na preparação e defesa da cidade e na recolha de mantimentos, funcionando como uma só força capaz de tudo (afirmação da consciência coletiva).

 

Capítulo 148

          Por último, o Capítulo 148 dá-se passado um longo período desde o início do cerco castelhano, numa fase em que se começavam a tomar medidas drásticas continuar a aguentar o cerco.

            É, por isso, nestas circunstâncias difíceis que a população demonstra a sua coragem e espírito de sacrifício, dadas as consequências que os meses de cerco decorridos trouxeram a Lisboa, em especial pela escassez de alimentos.


Referências

SILVA, Pedro; CARDOSO, Elsa; NUNES, Susana Ribeiro. Letras em dia 10. Maia: Porto Editora, 2023


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