Educação Literária - Farsa de Inês Pereira, de Gil Vicente

 Introdução

            A Farsa de Inês Pereira, escrita por Gil Vicente no século XVI, constitui uma sátira à sociedade quinhentista, sendo a própria Inês Pereira a protagonista da peça.

            A obra apresenta uma estrutura tripartida, que acompanha a evolução da protagonista enquanto pessoa. As divisórias estabelecem-se nos seguintes momentos;

 

- 1.ª parte: Inês fantasiosa (versos 1-405);

- 2.ª parte: Inês malmaridada (versos 406-912);

- 3.ª parte: Inês quite e desforrada (versos 913-1115).

 

            Ao se classificar como uma farsa, a obra apresenta também as seguintes características:

 

- Ação curta e concentrada;

- Número reduzido de personagens;

- O engano como tema central;

- Representação do quotidiano;

- Dimensão satírica e moralizadora.

 

            Quanto aos últimos dois tópicos, os mesmos serão abordados e explorados mais à frente.

 

Síntese da obra

            Inês Pereira anseia por se casar e sair de casa. Para tal, idealiza um marido que não corresponde ao seu primeiro pretendente, Pêro Marques, o qual agrada tanto à Mãe como a Lianor Vaz.

            Assim, Inês procura outro pretendente, encontrando em Brás da Mata as características que pediu, tal como sugerem os Judeus. Contudo, já depois do casamento, o Escudeiro revela-se tirano e opressivo, mantendo Inês cativa em casa.

Após a morte de Brás da Mata, Inês reflete acerca da sua primeira escolha, e decide aceitar Pêro Marques como seu marido, que lhe proporciona a vida livre que esta sempre desejou.

 

“Mais quero asno que me leve, que cavalo que me derrube”

 

Personagens


Inês Pereira

            Tal como o título sugere, Inês é a protagonista da obra, ocupando o núcleo da ação. Deste modo, é à sua volta que todas as personagens se movimentam. Inês constitui também a única personagem modelada na obra, o que significa que evolui ao longo da ação, alterando a sua perceção social e, consequentemente, as suas decisões em relação ao casamento.

            Antes do casamento, a protagonista concebe o casamento como uma forma de escapar ao “cativeiro” em que se sente com a mãe. Em casa, é também preguiçosa, o que se verifica quando a mesma rejeita as tarefas domésticas propostas pela mãe. Relativamente ao casamento, Inês é sonhadora e fantasiosa, idealizando um marido educado e bom falante, descartando a sua possível feição ou condição financeira. Este último ponto recebe especial atenção na situação que se segue com a entrada de Pêro Marques, pretendente proposto por Lianor Vaz, na medida em que a Mãe fica agradada pela sua condição, embora, ultimamente, Inês rejeite-o por considerá-lo um “parvo vilão”. Ou seja, Inês e a sua mãe entram em contradição face ao pretendente ideal.

            Numa segunda fase, após se casar com o Escudeiro (Brás da Mata), Inês é vítima dos “desvarios” do marido e deseja, mais uma vez, a liberdade. Ao saber da notícia de que o marido havia morrido, contenta-se e reconhece que a “experiência dá lição”. Assim, procura escolher um novo marido, todavia desta vez “à boa fé, sem mau engano, pacífico todo o ano”, para que a mesma possa aproveitar a vida de forma livre.

            Por última, após o casamento com Pêro Marques, vislumbra-o como o “asno” que lhe irá permitir ter a vida que sempre desejou e abusa da sua confiança, tornando-se adúltera.


Mãe

            A Mãe procura educar Inês, segundo o princípio de que “moça sisuda é uma perla para amar”, ensinando-lhe as bases da vida doméstica e os comportamentos que deve ter perante os seus pretendentes.

            Como já foi referido anteriormente, opõe-se ao ideal de marido da filha, preferindo que case com um seu “igual”. Desta forma, quando chega Pêro Marques, fica bastante agradada com o pretendente proposto por Lianor Vaz, contudo cede à vontade da filha, e oferece-lhe a casa após o seu casamento com o Escudeiro, desaparecendo por completo da ação a partir deste momento.


Pêro Marques

            Dada a sua distância do mundo urbano, caracteriza-se como sendo simples e rústico, desconhecedor das convenções sociais, respeitador, honesto e sincero. É apresentando a Inês pela alcoviteira como sendo “rico, honrado, conhecido”.

            Já no final da peça, devido à sua ingenuidade, torna-se o “asno” que leva Inês, no sentido literal, ao seu encontro com o Ermitão.


Lianor Vaz

            Lianor Vaz representa a figura da Alcoviteira, responsável pelos casamentos arranjados.

            É ponderada e objetiva, uma vez que aconselha a Inês que escolha quem a “adore” e não “quem faça com que chore”, sem nunca mencionar os seus interesses no processo.

            Serve também a crítica ao clero, após relatar à Mãe o ataque que sofreu de um clérigo.


Escudeiro (Brás da Mata)

          Antes do casamento, é caracterizado de forma direta pelos Judeus como sendo bem-falante, culto, educado e galanteador. Porém, depois de ser casar, revela-se hipócrita, pelintra, autoritário e abusivo, não só face a Inês como também ao Moço.

            Além disso, também demonstra ser tirano e violento, oprimindo a esposa, entrando assim em contraste com o modelo de marido que Pêro Marques aparentou ser.

            Vale ainda salientar que morre cobardemente em África, às mãos de um pastor, após fugir da guerra.


Judeus

            Assumem um papel semelhante ao de Lianor Vaz, embora se revelem interesseiros e astutos.

            Ultimamente, conseguem a Inês um marido que se enquadrava, aparentemente, no modelo idealizado pela mesma, sendo recompensados por isso.


Moço

            Responsável por criticar o seu amo (o Escudeiro) e por denunciar a sua má condição financeira.


Ermitão

          Constitui a figura de um clérigo dissimulado, o qual possibilita a Inês a concretização do adultério. Deste modo, permite ao autor, mais uma vez, criticar a imoralidade do clero.

 


A representação do quotidiano

            Dada a época em que Gil Vicente escreveu a obra, bem como a sociedade que tinha como referência, a Farsa de Inês Pereira constitui um importante testemunho histórico daquilo que era a vida em Portugal na primeira metade do século XVI.

            Assim sendo, na obra de Gil Vicente estão representados os seguintes parâmetros:

 

- O ambiente familiar, a clausura das raparigas solteiras, as tarefas domésticas e a influência materna;

- O universo dos casamentos arranjados e os seus intermediários;

- A vida urbana e cortês, marcada pela ostentação social e pelo culto das aparências (personificada no Escudeiro), que acompanham a decadência da nobreza;

- O mundo rural e simples, desprovido de artificialidades e afastado das convenções sociais (representado por Pêro Marques);

- As práticas religiosas e a libertinagem do clero (marcada pelo episódio de Lianor Vaz e pela figura do Ermitão);

- A corrupção moral, onde se destacam a dissimulação, os interesses, materiais, a agressividade e o adultério.

 

A dimensão satírica

            Tal como é hábito nas obras de Gil Vicente, a Farsa de Inês Pereira também possui uma dimensão satírica notável, que vai de encontro com a representação do quotidiano, e visa a criticar a sociedade portuguesa do século XVI, ainda que algumas críticas se mantenham até aos dias de hoje.

Deste modo, a dimensão satírica na peça corresponde aos seguintes tópicos:

 

- As transformações sociais decorrentes da expansão marítima, visível pela ausência da figura paterna, o que resulta na gerência do núcleo familiar por parte da mãe;

- O casamento por interesse e/ou negociado;

- O desejo de ascensão social e económica;

- A ambição material;

- O fascínio das raparigas pelo universo cortês;

- O parasitismo e a artificialidade social, nomeadamente a dissimulação entre o ser e o parecer);

- A corrupção moral, a crise de valores e a hipocrisia social;

- O confronto entre o mundo rural e o mundo urbano.


Referências

SILVA, Pedro; CARDOSO, Elsa; NUNES, Susana Ribeiro. Letras em dia 10. Maia: Porto Editora, 2023


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