Educação Literária - Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett

Introdução

            Frei Luís de Sousa, escrito por Almeida Garrett em 1843, constitui uma obra híbrida, na medida em que se trata tanto de um drama romântico como de uma tragédia clássica.

            Esta obra surge num período em que a literatura portuguesa era altamente influenciada pelo movimento crescente do Romantismo, e no qual o autor denotou uma decadência dos valores nacionalistas, optando por ir contra a corrente e tentar trazer de volta esses mesmos sentimentos, através da forte incorporação desta temática em Frei Luís de Sousa. Embora a obra tenha sido escrito em pleno século XIV, a ação decorre 1599, que corresponde a um dos períodos mais negros da História da nação, nomeadamente os sessenta de domínio espanhol em Portugal (União Ibérica), entre os anos de 1580 e 1640.

            Ao contrário do que outros dramaturgos fizeram, Almeida Garret decidiu escrever a sua obra em prosa, a fim de facilitar a sua leitura.

            É de notar ainda que o dramaturgo escreveu a sua obra com especial atenção a certos pormenores, com vista a que a mesma fosse representada ao público.

 

Estrutura

            A peça é composta por três atos, estando o primeiro e o último divididos em 12 cenas, enquanto o segundo ato se encontra dividido em 15 cenas.

            O primeiro ato dá-se no palácio de Manuel de Sousa Coutinho, o segundo no palácio de D. João de Portugal e, por último, o terceiro ato decorre na parte baixa do palácio de D. João, na Igreja de S. Paulo.

Como já foi referido anteriormente, a peça é constituída por três atos, cada qual pode ser dividida em três partes diferentes, sendo que a primeira parte de cada ato serve como uma breve exposição do mesmo.

Quanto à estrutura interna, a exposição corresponde às primeiras quatro cenas do ato I, o conflito vai desde a cena V do primeiro ato até à cena IX do terceiro ato e o desenlace engloba as cenas X, XI e XII deste último ato.

O final dos atos I, II e III fica marcado pelo incêndio ao palácio de Manuel de Sousa Coutinho, pela chegada do Romeiro e pelo momento da catástrofe final, respetivamente.

 

Características do drama romântico

        Tendo em conta a influência do Romantismo em Frei Luís de Sousa, é natural que a obra apresente diversos fatores que contribuem para a sua classificação como um drama romântico, entres os quais aqueles que já foram mencionados, como a escrita do texto em prosa e a divisão em três atos.

            Quanto aos temas românticos, encontramos os seguintes inseridos na obra de Almeida Garrett:

 

- A autenticidade e intensidade dos sentimentos, nomeadamente o amor;

- O individualismo e o confronto entres a sociedade e as suas normas, que limitam a felicidade e liberdade do indivíduo;

- A morte como libertação;

- A integração da História de Portugal e da sua cultura, bem como a atenção aos valores nacionais;

- A religião e as crenças populares.

 

A dimensão trágica

            À semelhança do ponto anterior, na obra também estão presentes componentes que justificam a sua classificação como uma tragédia clássica, entre os quais:

 

- Ação simples e concentrada;

- Número reduzido de personagens, de estatuto social elevado;

- Elementos como o Destino, hybris (desafio), pathos (sofrimento), clímax, anagnórise (reconhecimento) e catástrofe (desenlace fatal), todos eles característicos da tragédia clássica;

- Concentração do tempo e do espaço, isto é, os marcos da passagem do tempo vão ficando mais próximos e o tamanho do espaço diminui com a passagem de cada ato. Isto pode ser interpretado como um afunilamento do espaço, o que se enquadra perfeitamente no tópico seguinte;

- Indícios de tragédia constantes, tais como a simbologia dos números (sete e três), o Sebastianismo, os agouros e presságios, os retratos de D. Manuel e de D. João de Portugal, a doença de Maria (tuberculose), a história dos Condes de Vimioso, entre muitos outros;

 

A dimensão patriótica

            A presença do patriotismo em Frei Luís de Sousa constitui um dos aspetos mais importantes na obra, carregando não só relevância dos valores nacionalistas na sociedade portuguesa, como também uma simbologia que confere à obra uma dimensão patriótica notável. No que toca a este último ponto, podemos dividi-lo nos seguintes pontos:

 

- Patriotismo: As atitudes de Manuel de Sousa Coutinho, principalmente ao provocar um incêndio, de forma intencional, no seu próprio palácio, evidenciam a resistência ao domínio espanhol;

- Recurso a figuras históricas: D. Sebastião é associado à recuperação da independência de Portugal, Camões à glória da Pátria durante os Descobrimentos e D. João de Portugal ao passado, tanto nacional como familiar;

- Sebastianismo: Apoia-se na crença de um possível regresso do rei D. Sebastião, o que funcionaria como um ótimo mecanismo de libertação para Portugal. Desta forma, este cenário é muito desejado pela população portuguesa nesta época. Vale ainda salientar que, ao se confirmar a seguinte hipótese, o regresso de D. João de Portugal também se tornaria provável, tópico que será esclarecido em diferentes momentos mais à frente.

 

O Sebastianismo

            O último tópico do capítulo anterior pode ser ainda mais explorado, uma vez que possui uma elevada relevância para o entendimento da obra e posterior apreciação. Falamos dos seguintes:

 

- Factos históricos: Em 1578, D. Sebastião desapareceu na Batalha de Alcácer Quibir, dando origem a uma crise política em Portugal, o que resultou na perda da independência do país para Espanha em 1580. Nos anos que se seguiram, foram surgindo várias crenças populares associadas ao regresso do rei, para recuperar a independência;

- Ficção: No contexto da obra, D. João de Portugal também desapareceu na mesma batalha, sendo proporcionadas buscas durante sete anos, por parte de Madalena, com o objetivo de o encontrar;

- “Anti regresso”: Embora se deseje que D. Sebastião regresse, o eventual regresso de D. João de Portugal implicaria uma catástrofe, que acaba por se confirmar no final da peça.

 

Personagens

            Ainda que sejam poucas as personagens realmente importantes na peça, cada uma delas apresenta traços de carácter únicos, os quais merecem uma devida breve contextualização.

 

Madalena de Vilhena

- Casada com Manuel;

- Romântica, sentimental e vulnerável;

- Protetora dedicada da filha, zelando pelo ser bem-estar;

- Dominada pelas lembranças do passado e pela culpa, pela angústia e pelos temores constantes (teme um possível regresso de D. João de Portugal, embora acredite que o mesmo não voltará);

- Crente em pressentimentos e agouros que, juntamente com o sentimento de culpa, não a deixam ser plenamente feliz e a atormentam regularmente;

- Converte-se à vida católica com Manuel de Sousa Coutinho, como forma de compensar o pecado (morte psicológica).

 

Manuel de Sousa Coutinho

- Casado com Madalena;

- Cavaleiro da Ordem de Malta;

-  Racional, objetivo, decidido e culto;

- Corajoso, destemido e determinado;

- Patriota orgulhoso e empenhado na defesa da nação;

- Movido pelo sentido de honra e de dever;

- Bom marido e pai;

- Desvaloriza os agouros e pressentimentos que assolam Madalena;

- Desapegado dos bens materiais;

- Resigna-se à culpa e ao castigo, após ser confirmando o regresso de D. João de Portugal (morte psicológica).

 

Maria de Noronha

- Filha (ilegítima) de Madalena e Manuel;

- Alvo de atenção de preocupação por parte das restantes personagens;

- Idealizada como um ser angelical, possuindo leves capacidades sobrenaturais;

- Frágil, sensível, pura e bondosa;

- Culta, inteligente e muito perspicaz;

- Patriota, à semelhança do pai, e sebastianista, por influência de Telmo;

- Vítima da tuberculose (morte física), dos erros cometidos pelos pais e das convenções religiosas (morte psicológica), revoltando-se contra as últimas antes de falecer efetivamente.

 

Telmo Pais

- Escudeiro honrado e dedicado à família de Madalena, embora considere que o ser verdadeiro amo será sempre D. João de Portugal, estando convencido do seu eventual regresso e, portanto, assumindo-se como um sebastianista convicto;

- Muito afetuoso parente Maria e dedicado à sua proteção;

- Confidente e conselheiro de Madalena e de Maria;

- Vítima de um conflito interior, dado o seu crescente afeto por Maria (presente) e a sua lealdade a D. João de Portugal. A confirmação do regresso de D. João de Portugal acentua este conflito, provocando o seu desaparecimento de cena antes da cerimónia final (cai no esquecimento).

 

D. João de Portugal / Romeiro

- Cavaleiro honrado e destemido, desaparecendo ao serviço da fé cristã no Norte de África (Batalha de Alcácer Quibir);

- Associado à crença sebastianista;

- Representa o passado, incompatível com o presente (personificado em Maria)

- Razão da preocupação constante das figuras adultas, especialmente Madalena (teme a ilegitimidade da filha), conferindo-lhe uma omnipresença simbólica, com a ajuda do seu retrato;

- Triste, desiludido e magoado no momento do seu regresso, ao ver que Telmo não o reconhece instantaneamente e ao se aperceber que perdeu a sua esposa (Madalena), sentindo-se esquecido por todos (morte psicológica);

- Provoca a catástrofe ao revelar a sua verdadeira identidade;

- Generoso e altruísta, tentando reverter os impactes negativos do seu regresso.

 

Frei Jorge

- Sereno, seguro e ponderado, é responsável por aconselhar e consolar a família, face às adversidades que surgem, de acordo com os princípios cristãos;

- Atua, também, como confidente de Maria.


Referências

SILVA, Pedro; CARDOSO, Elsa; NUNES, Susana Ribeiro. Letras em dia 11. Maia: Porto Editora, 2024


Comentários

Mensagens populares deste blogue

Apreciação Crítica - Astro Bot

Educação Literária - Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco

Texto de Opinião - Mundo Urbano vs. Mundo Rural