Educação Literária - Os Lusíadas, de Luís de Camões

Introdução

            Publicado em 1572, oito anos antes da perda da independência de Portugal para Espanha, Os Lusíadas, de Luís de Camões, surgem num período em que o Renascimento atingia Portugal, e constituem, sem dúvida, uma das maiores obras literárias portuguesas de sempre, senão mesmo a melhor. Tal foi a relevância de Camões na literatura nacional, que atualmente temos um feriado nacional no dia 10 de junho, conhecido como o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

            Embora reconheçamos Camões hoje em dia como sendo um dos maiores escritores da nossa História, este viveu e faleceu na miséria, sendo o seu ano de nascimento incerto para os historiadores.

            De forma sucinta, Os Lusíadas tratam-se de uma narrativa épica escrita em verso, isto é, uma epopeia, onde é descrita a viagem de Vasco da Gama e da sua tripulação até à Índia.

 

Estrutura interna

Antes de se iniciar a narração, a epopeia começa pela proposição, onde o poeta se propõe a cantar os feitos ilustres lusitanos e os responsáveis pelos mesmos, seguindo-se da invocação, onde Camões pede inspiração às ninfas do Tejo (Tágides), e da dedicatória, onde o poeta oferece a obra ao rei D. Sebastião, para depois seguir com a narração in media res (“no meio das coisas”).

            Além disso, a obra está dividida em quatro planos diferentes, sendo estes o plano da viagem, o plano da História de Portugal, o plano da mitologia e o plano das reflexões do poeta. É neste último plano que se inserem as pausas no discurso grandioso, onde o poeta aproveita para refletir e dar a sua opinião pessoal, relativamente aos momentos contados anteriormente. Trata-se também do único plano não narrativo da obra e daquele que é lecionado no 10º ano.

Quanto aos outros, o plano da viagem consiste na travessia da frota portuguesa até ao subcontinente indiano, o plano da História de Portugal constitui os momentos anteriores à viagem, com destaque para a analepse de Vasco da Gama, e o plano da mitologia consiste nos episódios onde são descritas os diálogos dos deuses e as suas intervenções na viagem dos portugueses.

 

Estrutura externa

          Quanto à estrutura externa, a obra é constituída por 10 cantos e por um total de 1102 estâncias. Cada estância assume a mesma estrutura, sendo todas elas oitavas, compostas por versos decassilábicos, e seguindo um esquema rimático de ABABABCC.

 


Reflexões do poeta

 

Fragilidade da condição humana

          Nas estâncias 105 e 106 do Canto I, Luís de Camões reflete acerca da fragilidade da vida humana, que descreve como sendo o “bicho da terra tão pequeno”.

            Esta reflexão ocorre após a emboscada que os navegadores portugueses sofrem em Mombaça pelos nativos sob a influência negativa de Baco. Ainda assim, ultrapassam o perigo com a ajuda de Vénus.

            Deste modo, o poeta afirma que o ser humano está constantemente sujeito ao perigo, e que as fatalidades físicas são inevitáveis, embora o herói as tente resistir.

            Portanto, o poeta conclui que a tragédia consistirá na consciência da miséria do indivíduo, perante forças às quais pode tentar, mas não consegue resistir. Trata-se, assim, do sentimento trágico que o escritor exprime no final do Canto I.

 

O desprezo pelas artes e pelas letras

          Nas estâncias 92 a 100 do Canto V, Camões defende o ideal de conciliação das armas e das letras (o herói letrado), critica o desprezo dos portugueses pelas artes e pelas letras e valoriza o canto como meio de enaltecimento dos heróis.

            Esta reflexão dá-se após a longa analepse de Vasco da Gama, na qual conta a História de Portugal ao rei de Melinde, desde a sua fundação até ao reinado de D. Manuel, descrevendo ainda a sua viagem de Lisboa até Melinde.

            Neste excerto, o poeta defende o quão doce é ouvir a glória dos grandes feitos, quando os mesmos são bem cantados, o que contrasta com o desprezo dos portugueses por esta arte. É também neste contexto que Camões refere um dos seus versos mais icónicos: “Mas, nũa mão a pena e noutra a lança”.

 

Os critérios para (não) merecer o canto

          As estâncias 78 a 87 do Canto VII ficam marcadas pela invocação do poeta às Ninfas do Tejo e do Mondego, pelos lamentos do poeta face à desvalorização nacional das adversidades por si vividas, da sua obra e das letras no geral e pela reflexão sobre os critérios para (não) merecer o canto.

            Esta reflexão surge após a chegada da frota portuguesa à Índia, depois de ultrapassarem uma forte tempestade causada por Baco, que instiga os deuses marinhos contra os lusitanos.

            Nestas estâncias, além dos pontos referidos anteriormente, o poeta enuncia quais são esses mesmos critérios, onde escreve que não irá cantar aqueles que antepuserem os seus interesses relativamente ao seu Rei e ao bem comum, aqueles que exijam subir a grandes cargos com o objetivo de mandar e impor os seus vícios, nem aqueles que roubem aos mais pobres ou àqueles que merecem realmente serem recompensados pelo seu trabalho árduo.

            Desta forma, Luís de Camões termina a sua reflexão a reforçar a ideia de que apenas cantará aqueles que se aventurarem e se sacrificarem em nome de Deus, do Rei e da Pátria.

 

O poder corruptor do dinheiro

Nas estâncias 96 a 99 do Canto VIII, o poeta apresenta as suas considerações acerca do poder corruptor do dinheiro e da influência daquilo a que chama de “metal luzente e louro”.

Esta reflexão ocorre depois dos portugueses chegarem à Índia, onde inicialmente são bem recebidos. Contudo, Baco volta a interferir, e instiga o Catual contra os portugueses, o que resulta na sua exigência para que os portugueses entreguem a mercadoria que transportam, a fim de lhes ser permitido partir.

Neste excerto, Camões procede à enunciação de atos de corrupção que percorrem todos os estratos sociais, com especial atenção para as elites. Assim, este poder corruptor revela-se responsável pela traição e a falsidade, pela depravação das ciências, pela alteração de leis, por tornar reis tiranos, entre outros.

 

O caminho para atingir a fama e a imortalidade

          Nas estâncias 88 a 95 do Canto IX, o poeta explicita o significado alegórico da Ilha dos Amores e reflete sobre o caminho para atingir a fama e a imortalidade.

            Após a resolução dos conflitos na Índia e do início da viagem de regresso à Pátria, os navegadores deparam-se com uma surpresa preparada por Vénus, nomeadamente uma ilha habitada por ninfas, como forma de recompensa para os portugueses por terem completado o seu objetivo, demonstrando bastante força e coragem ao longo da travessia. O Canto IX termina com uma nova reflexão do poeta.

            Nas estâncias em questão, dá-se a mitificação do herói, através da narrativa erótica do episódio da Ilha dos Amores, que garante a ascensão dos navegadores portugueses à condição divina. Ainda assim, o escritor reforça a ideia de que a obtenção da tão desejada imortalidade não é para qualquer um e, portanto, requer a realização de feitos grandiosos, tais como aqueles alcançados por Vasco da Gama e pela sua tripulação, que se aventuraram no desconhecido em nome de Deus e do Rei. Deste modo, o reino ficará mais poderoso e rico, o monarca ganhará glória, entre outros.

 

Lamentos do poeta e apelo ao Rei

          As estâncias finais d’Os Lusíadas no canto X ficam marcadas pelas lamentações de Luís de Camões, pelas suas críticas à Pátria e, por fim, pela exortação ao rei.

            Esta última reflexão dá-se com o regresso da frota a Portugal, após a demonstração privilegiada da Máquina do Mundo a Vasco da Gama, ainda na Ilha dos Amores, na qual Tétis destaca os locais que os portugueses alcançarão no futuro.

            Neste excerto final, o poeta volta a evidenciar o seu descontentamento perante o menosprezo dos portugueses face à sua obra, critica a Pátria por ser dominada pelo “gosto da cobiça” e pela “austera, apagada e vil tristeza”, e elogia o Rei, pedindo-lhe que valorize os seus “vassalos excelentes” e que devolva ao reino a glória que alcançou nos períodos descritos na obra, através da promoção de novos feitos dignos de louvor.


Referências

SILVA, Pedro; CARDOSO, Elsa; NUNES, Susana Ribeiro. Letras em dia 10. Maia: Porto Editora, 2023



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