Educação Literária - Os Maias, de Eça de Queirós

Introdução

            Os Maias, de Eça de Queirós, constitui umas das mais emblemáticas obras portuguesas do Realismo. Foi publicada em 1888.

            Dada a natureza da obra, altamente influenciada pelo Realismo e Naturalismo, Os Maias são considerados um monumento literário, ou seja, um testemunho da vida portuguesa na segunda metade do século XIX. A obra é também reconhecida como o romance dos defeitos de Portugal, pela sua abrangência a nível da crítica social.

            Mas afinal o que é o Realismo? Bom, o realismo é marcado pela procura em transmitir todo o real, independentemente do seu grau de complexidade. Desta forma, engloba temáticas relacionadas com a vida familiar, económica e cultural e social. Já o naturalismo baseia-se na hereditariedade, no ambiente, na educação e no momento histórico.

            Tudo isto surge num período em que Eça de Queirós, em conjunto com outros escritores, apontava um novo caminho à literatura, visando uma revolução literária para impor o Realismo e dar fim ao Romantismo. A este processo deu-se o nome de “Questão Coimbrã”.

 

Visão global e estruturação

O título “Os Maias” refere-se à história da família Maia, ao longo de várias gerações (Caetano da Maia, Afonso da Maia, Pedro da Maia e Carlos da Maia), onde se enquadram a intriga secundária (história amorosa entre Pedro e Maria Monforte) e a intriga principal (relação de Carlos e Maria Eduarda)

            Já o subtítulo “episódios da vida romântica” remete para a crítica de costumes, em especial da alta burguesia lisboeta, e para a descrição depreciativa de um Portugal “pobre” e “provinciano”.

            Tanto a crónica de costumes como a intriga principal decorrem simultaneamente, desde o capítulo IV até ao capítulo XVII. Os primeiros quatro capítulos ficam marcados pela longa analepse, onde é relatada a intriga secundária e a educação de Carlos, enquanto o capítulo final (Cap. XVIII) correspondo ao epílogo (dez anos depois de ter terminado a intriga principal).

 

Representações dos sentimentos e da paixão (diversificação da intriga amorosa)

            Como já foi brevemente referido antes, é relatada mais do que uma experiência amorosa, as quais são distintas umas das outras, de acordo com o temperamento das personagens

            Assim, n’Os Maias, observamos as seguintes intrigas amorosas:

 

- Pedro da Maia e Maria Monforte: amor romântico e fatal (fuga de Maria e suicídio de Pedro);

- Carlos da Maia e Maria Eduarda: amor romântico e trágico (incesto e separação);

- João da Ega e Raquel Cohen: adultério (descoberta e separação).

 

Representação de espaços sociais e crítica de costumes

            A representação de espaços sociais e a crítica de costumes na obra é feita com recurso a personagens-tipo e à descrição de ambientes típicos da sociedade portuguesa da segunda metade do século XIX.

            Cada episódio representativo n’Os Maias, correspondente à crónica de costumes, fica marcado pelo seguinte:

 

Jantar no Hotel Central

- Confronto entre o Naturalismo (defendido por Ega) e o Ultrarromantismo (defendido por Tomás de Alencar);

- Critica-se as Finanças portuguesas e o estado geral do país, carente de reformas a vários níveis);

- Condenação dos excessos e da superficialidade da crítica literária.

 

Corridas de cavalos

- Sátira ao desejo de imitar o que se faz no estrangeiro (tentativa com improvisações da sociedade portuguesa, através de um provincianismo e de uma mentalidade ridícula);

- Apreciação irónica e caricatural da sociedade burguesa que vive de aparências (dissimulação entre o ser e o parecer);

- Crítica à mentalidade e comportamento inadequado da alta sociedade.

 

Jantar em casa dos Gouvarinho

- Critica-se a incompetência, a ignorância e a pobreza de espírito dos políticos e da administração pública.

 

Jornais A Corneta do Diabo e A Tarde

- Os diretores dos jornais simbolizam o jornalismo medíocre, corrupto e pouco transparente;

- Crítica à decadência do jornalismo português, desprovido de ética e movido por interesses políticos e económicos.

 

Sarau no Teatro da Trindade

- Critica-se a ausência de espírito crítico, a falta de cultura, a falta de sensibilidade em relação à música, a falta de saber estar e a ausência da monarquia (por não cumprir o seu papel).

 

Passeio final de Carlos e Ega

- Crítica à Alta Sociedade, ao país (monótono e sem progresso), à imitação do estrangeiro (malsucedida), à sociedade (degradação progressiva e irremediável) e, mais uma vez, à mentalidade romântica.

 

Características trágica dos protagonistas

            À semelhança de outras grandes obras, como é o caso de Frei Luís de Sousa, n’Os Maias estão presentes inúmeros indícios de tragédia, os quais podem ser encontrados nas características dos próprios protagonistas (Afonso da Maia, Carlos da Maia e Maria Eduarda).

            Além disso, algumas características são transversais às suas propriedades individuais, sendo comuns a mais do que uma personagem.

            Assim sendo, surgem como características trágicas os seguintes tópicos:

 

Afonso da Maia

- Mudança para o Ramalhete, após se ausentar durante anos.

 

Carlos da Maia

- Semelhança física com a mãe, Maria Monforte, traços em que Maria Eduarda repara;

- Semelhança física com o pai (“os olhos dos Maias, aqueles irresistíveis olhos do pai”).

 

Maria Eduarda

- Semelhança temperamental com Afonso, a qual é reconhecido por Carlos.

 

Carlos e Maria Eduarda

- Similaridade dos seus nomes (Eduardo e Eduarda);

- Parecenças enquanto crianças;

- Semelhança física (“os belos olhos negros dos Maias”);

- Concretização da relação amorosa na Toca (local decorado de forma sinistra e sensual);

- Surgimento da possibilidade da sua relação ser incestuosa.

 

Afonso, Carlos e Maria Eduarda

- Superioridade física e intelectual (destacam-se no meio pequeno e medíocre em que vivem);

- A força do destino (o destino é implacável);

- A lenda do Ramalhete, segundo a qual “eram sempre fatais aos Maias as paredes” da casa;

- Confronto contínuo com presságios;

- Contacto com espaços físicos simbolicamente ligados à morte e à destruição (jardim do Ramalhete).

 

A descrição do real e o papel das sensações

            Na sua obra, Eça de Queirós atribui especial atenção à descrição do espaço, de modo que o leitor retenha a maior quantidade de informação possível relativamente ao cenário.

            Assim, é natural que o autor menciona os vários pormenores que compõem a paisagem, o que confere à obra os seguintes elementos:

 

- Descrição detalhada da realidade, como garantia de autenticidade da obra (realismo);

- Relação entre os espaços e as personagens (contribui para a caracterização das personagens e para a representação dos espaços sociais através das personagens-tipo – crítica de costumes);

- Recriação impressionista e sensorial do real (recurso intenso aos cinco sentidos).

 

Espaços e seu valor simbólico

            Na obra de Eça de Queirós, as personagens estabelecem relações emotivas com os vários espaços geográficos e com os microespaços, o que lhes confere um significado especial, isto é, um valor simbólico.

 

Lisboa

            Capital do país e o espaço social, político e representativo da nação, através dos seus hotéis, teatros, cafés, jornais, entre outros.

            Serve de cenário para grande parte dos “episódios da vida romântica” (subtítulo dado à obra), e, portanto, assume-se como um local privilegiado para a crítica de costumes.    

            Assim, é em Lisboa que se localizam os seis espaços seguintes:

 

Casa de Benfica

            Casa ligada ao suicídio de Pedro da Maia e à rutura da família Maia.

 

Ramalhete

            Casa associada à ascensão e posterior queda abrupta da família Maia, após 1875.

 

Casa da Rua de S. Francisco

            Local de aproximação amorosa de Carlos da Maia e de Maria Eduarda.

 

Casa de Arroios

            Espaço da vida familiar de Pedro da Maia e de Maria Monforte.

 

Consultório

          Espaço emblemático da ociosidade de Carlos e do seu gosto pelo luxo.

 

Toca

            Representa o local íntimo de Carlos e Maria Eduarda, sendo este o seu espaço secreto associado à prática do amor incestuoso.

 

Santa Olávia

          Local puro, diretamente associado à tranquilidade característica do campo.

 

Sintra

            Espaço natural, conotado na obra como o paraíso romântico em Portugal.

 

Coimbra

            Cidade responsável pela formação académica de Carlos de Maia e João da Ega.

 

Linguagem e estilo

            Sem dúvida que o modo como o autor procede para a descrição do espaço e de cada elemento visível constitui um dos aspetos mais marcantes d’Os Maias, como foi referido anteriormente.

Para tal, o narrador recorre a uma linguagem e estilo notáveis, os quais, em conjunto, apresentam as seguintes características:

 

- Uso expressivo dos adjetivos (dupla, tripla ou até múltipla adjetivação e adjetivação expressiva), o que contribui para a expressão de juízos de valor e emoções e consequente sátira;

- Uso expressivo dos advérbios para a caracterização do estado de espírito das personagens (ex.: “maquinalmente”);

- Uso expressivo do diminutivo, sobretudo com valor depreciativo;

- Utilização de recursos expressivos, como a sinestesia, metáfora, ironia, comparação e personificação, para descrever o real e proceder à crítica social;

- Exploração expressiva das modalidades de reprodução do discurso, em particular o discurso indireto livre, bem como dos verbos introdutores do relato.

 

Referências

SILVA, Pedro; CARDOSO, Elsa; NUNES, Susana Ribeiro. Letras em dia 11. Maia: Porto Editora, 2024

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