Educação Literária - Rimas, de Luís de Camões
Introdução
As Rimas tratam-se do conjunto
de poesia lírica escrita por Luís de Camões.
Esta obra surge num contexto
histórico marcado pelo Renascimento, pelo Humanismo e pelo Classicismo, movimentos
que alteraram por completo a forma como o ser humano encarava o mundo,
relativamente à Idade Média. Deste modo, renasceu a cultura greco-latina da
Antiguidade Clássica, adotou-se um novo modelo artístico baseado na harmonia,
simplicidade, equilíbrio, entre outros, e rompeu-se com a visão teocêntrica da
Idade Média (Deus no centro do Universo) em favor de uma visão antropocêntrica
(o Homem no centro do Universo).
Vale ainda salientar a influência da
lírica tradicional e o papel da inspiração clássica em Camões lírico, além do discurso
pessoal e das marcas subjetivas, que são responsáveis pelos vários modelos
estruturais que o poeta adotou para os seus poemas.
Estrutura
Influência da lírica tradicional
Dada a
influência da poesia trovadoresca e poesia palaciana na obra de Camões, é de
esperar que o poeta tenha recorrido com bastante frequência à medida velha e a
formas predominantes na lírica tradicional portuguesa.
A medida
velha refere-se ao uso de versos constituídos por cinco sílabas métricas, às
quais se dão o nome de redondilha menor, ou por sete sílabas métricas, às quais
se dão o nome de redondilhas maiores.
Quanto à
forma, e ainda falando daquilo que era a influência da lírica tradicional, os
poemas podem-se enquadrar nos seguintes modelos:
Vilancete:
- Mote curto: dois ou três versos (geralmente
heptassilábicos);
- Glosa: uma ou mais estrofes (geralmente sétimas);
- Temas amorosos ou bucólicos.
Cantiga:
- Mote: quatro ou cinco versos;
- Glosa: uma ou mais estrofes (geralmente entre oito e dez
versos).
Esparsa:
- Apenas uma estrofe (de oito a dezasseis versos) em
redondilha;
- Tom melancólico.
Endechas ou Trovas:
- Número variável de estrofes (frequentemente quadras ou
oitavas).
Inspiração clássica
A inspiração clássica na poesia
camoniana é visível pelo recurso ao verso decassilábico, ao qual se dá o nome
de medida nova, predominantemente usado na forma de soneto.
O soneto
ocupa um lugar central nas Rimas, e é através dele que o poeta nos fala
dos vários temas, relacionados com o amor, a mulher idealizada, o desconcerto
do mundo, os caprichos do destino, a natureza, a mudança, o tempo e a morte.
Quanto à sua
estrutura, o soneto deve respeitar os seguintes componentes:
- Duas quadras, seguindo-se de dois tercetos;
- Versos com dez sílabas métricas (verso decassilábico);
- Estrutura rimática flexível, embora a articulação nas
quadras e nos tercetos seja distinta (ex.: ABBA ABBA CDC DCD);
- Geralmente encerra-se em chave de ouro (conclusão).
Temas
A reflexão sobre a vida pessoal
Esta tema fica marcado por uma auto caracterização
pesada e negativa por parte do sujeito poético.
Nos poemas inseridos nesta temática,
é comum o “eu” lírico dar ênfase ao seu percurso vivencial determinado pela
força implacável do destino, e atribuir não só às experiências passadas como ao
presente um carácter negativo, onde se destacam sentimentos como o desencanto,
a frustração, a angústia e um forte sofrimento, motivados por essa mesma
reflexão pessimista que o sujeito poético tem dele mesmo.
Servem de exemplo os poemas “O dia em
que eu nasci” e “Erros meus, má fortuna, amor ardente”.
A representação da amada
O tema da representação da mulher
amada distingue-se pelas características a ela atribuídas, bem como pelos
sentimentos que inflige no “eu” lírico.
Dado o
contexto histórico em que se insere esta obra, é natural que muitas das
descrições que se encontram nas Rimas vão de encontro ao ideal de mulher do
Renascimento, nomeadamente a chamada mulher petrarquista, embora hajam exceções
que contrastem com este ideal, como é o caso do poema “Aquela cativa”.
O ideal de
mulher petrarquista caracteriza-se pelos cabelos loiros, a pele clara, os olhos
brilhantes, pela presença de cores como o vermelho, entre outros.
Vale ainda
salientar que, de forma a atribuir maior destaque à mulher amada, a sua
descrição é muitas vezes misturada com elementos da natureza, de forma a ampliar
ainda amais a sua beleza.
Ainda assim,
não só a inacessibilidade da mulher amada, como também a sua frieza e
indiferença, são fatores diretamente responsável pelo sofrimento do sujeito
poético.
Aqui, servem
de exemplo as composições poéticas “Descalça vai para a fonte” e “Um mover
d’olhos, brando e piadoso”.
A experiência amorosa e a reflexão sobre o amor
O amor
assume-se como o tema central da poesia camoniana. Assim, surge como o
sentimento superior, porém, ao mesmo tempo, indefinível e inexplicável.
Nos seus
poemas, o sujeito poético atribui ao amor, muitas vezes, um carácter paradoxal.
Isto é, o amor pode muitas vezes ser o motor para a vida do “eu” lírico, no
entanto, é também o responsável por sentimentos como o desconcerto, a desordem,
a falta de harmonia e sobretudo o sofrimento, dado o amor não correspondido.
Esta mesma contradição dos efeitos do amor enquadra-se na sua definição ao
jeito petrarquista.
No tema da
representação da Natureza, encaixam-se poemas como “Tanto de meu estado me acho
incerto” e o famoso “Amor é um fogo que arde sem se ver”.
A representação da Natureza
Na lírica
camoniana, a Natureza surge habitualmente associada à expressão do sentimento
amoroso por parte do sujeito poético.
Nestes
poemas, o espaço natural é muitas vezes descrito como sendo um cenário bucólico
e agradável, onde se destacam cores como o verde e a forte iluminação, que
culminam numa caracterização idílica, exuberante e, à partida, perfeita, de
maneira a formar um locus amoenus (lugar aprazível).
Deste modo, a
Natureza surge como o reflexo do estado de espírito do “eu”, que se pode dar
por reflexo direto ou oposto, dependendo da mulher amada. Caso se verifique um
amor recíproco, então o reflexo será direto; caso contrário, será oposto.
É oportuno ainda
mencionar que os elementos naturais do cenário aparecem muitas vezes como confidentes
do sujeito poético.
Nesta
temática, inserem-se os poemas “Verdes são os campos” e “A fermosura desta
fresca serra”.
O tema da mudança
O tema da
mudança ocupa um lugar particular na poesia camoniana. De forma sucinta, esta
mudança está diretamente relacionada com a passagem do tempo, que se revela
inexorável.
O tema da
mudança surge associado especialmente à Natureza e à sociedade. A primeira refere-se
à renovação cíclica da Natureza, à medida que as estações passam, enquanto a
segunda traduz o envelhecimento das pessoas à medida que os anos correm, o que
é muitas vezes acompanhado por uma evolução nos valores e atitudes sociais.
Para quem se
apercebe desta mudança, a mesma pode provocar sentimentos relacionados com o
desconforto, o espanto e o desânimo.
Para tal,
servem de exemplo os poemas “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” e “O
tempo acaba o ano, o mês e a hora”.
O tema do desconcerto
Na lírica
camoniana, o tema do desconcerto traduz uma forte crítica à sociedade, na
medida em que este mesmo desconcerto se refere à corrupção moral e à degradação
de valores que o poeta observa numa sociedade em transformação.
Embora possa
ser proporcionado por vários meios, tais como a expansão ultramarina observada no
tempo em que Camões escreve estes poemas, o “desconcerto do mundo” torna-se o
responsável pela atribuição de prémios e castigos desencontradamente, pela redistribuição
caótica de riqueza e de poder, pelos buracos na justiça, entre outras falhas e
vícios que o sujeito poético denuncia na sociedade. É no seguimento desta
crítica que o poeta compara o mundo histórica com a Babilónia confusa e
viciosa.
Ainda assim,
na poesia camoniana também surge o desconcerto individual, o qual se refere à
desilusão com a vida pessoal e ao destino que, mais uma vez, surge como uma
força implacável nas experiências de vida do “eu” lírico.
Dentro deste
tema, serve de exemplo o poema “Cá nesta Babilónia”.
Referências
SILVA, Pedro; CARDOSO, Elsa; NUNES, Susana Ribeiro. Letras em dia 10. Maia: Porto Editora, 2023
Comentários
Enviar um comentário